Marcos Jank analisa o papel estratégico do Brasil na segurança alimentar global

Marcos Jank analisa o papel estratégico do Brasil na segurança alimentar global

Parte fundamental da identidade econômica e estratégica do Brasil, o agronegócio ocupa posição central no debate sobre produção de alimentos, comércio internacional, sustentabilidade e segurança alimentar. Reconhecido mundialmente por sua capacidade produtiva, o país figura entre os maiores exportadores globais de soja, café, carnes, açúcar e celulose, exercendo influência direta sobre os sistemas agroalimentares que abastecem diferentes regiões do planeta.

Para aprofundar esse tema e discutir os desafios e oportunidades do Brasil nesse cenário em transformação, a COCRED MAIS conversou com Marcos Sawaya Jank, uma das principais referências em temas agroalimentares globais. Com 37 anos de carreira dedicados ao setor, Jank construiu uma trajetória que transita entre a academia, o setor público, o mundo empresarial e organismos internacionais, sempre com foco na agropecuária e nos mercados globais de alimentos.

Professor sênior do Insper e coordenador do Insper Agro Global, Jank também acumula experiências como pesquisador, executivo, dirigente de entidades setoriais e conselheiro de grandes empresas do agronegócio. Viveu e trabalhou por uma década no exterior, com passagens pelos Estados Unidos, Europa e Ásia, acompanhando de perto a dinâmica global da produção, do consumo e do comércio de alimentos.

Nesta entrevista, ele analisa o papel atual do Brasil nos sistemas agroalimentares globais, os impactos das mudanças climáticas, da geopolítica e do crescimento da demanda asiática, além dos gargalos logísticos, da sustentabilidade e das estratégias necessárias para que o país amplie sua relevância no cenário internacional.

Começando básico. Quando falamos em sistemas agroalimentares globais, do que exatamente estamos falando? Como podemos explicar esse conceito?

Marcos Sawaya Jank | Quando a gente olha cadeias agroalimentares ou sistemas agroalimentares, estamos falando basicamente da junção da agropecuária, que é um setor primário, com as indústrias que estão para frente e para trás da fazenda, como indústrias de insumos, equipamentos, agroindústria e a distribuição até chegar no consumidor final. Tem ainda várias indústrias que não são alimentares e que também fazem parte do agronegócio, como indústria de fibras, indústria de celulose, de borracha e etc. Hoje, o Brasil é muito importante nesse contexto, sendo o quarto maior produtor de alimentos do mundo e o terceiro maior exportador. Se a gente olhar só nas commodities agropecuárias do Brasil, o país é o primeiro do mundo e tem também o maior saldo comercial agrícola do planeta.

Pensando nesse contexto global, qual é o papel atual do Brasil na oferta de alimentos ao mundo?

Marcos Sawaya Jank | O Brasil é especializado, essencialmente, na produção de commodities. Não somos fortes na produção de produtos finais, aqueles que chegam ao consumidor com marca, embalagem, marketing e com uma distribuição que atinge os pontos de venda. O Brasil está mais no ramo das commodities, que são produtos padronizados, cotados em bolsa e produzidos no mundo inteiro. Em comparação, o Brasil é mais eficiente que outros países para fazer commodities, como de soja, milho, algodão, carnes, celulose, suco de laranja e café. Esses são os principais produtos que o Brasil exporta, e apesar de sermos superimportante nesses mercados, não somos bons em diferenciação e adição de valor. A gente hoje é o maior exportador de commodities agropecuárias do mundo. Então, a gente tem um papel nessa área, mas no valor adicionado na diferenciação, a gente ainda pode fazer muito mais, não é uma área que nós somos fortes. A Europa é forte nisso. Estados Unidos, mesmo alguns países da Ásia, Austrália, aqui na América Latina, o Chile e o México. São países que fazem valor adicionado.

Como avalia o futuro da segurança alimentar global e a importância estratégica do Brasil nesse cenário?

Marcos Sawaya Jank | O cenário é de uma redução importante da fome e da desnutrição no mundo, se a gente olhar nos últimos 20, 30 anos, isso foi muito forte, principalmente na Ásia e na China, mas nos anos depois da pandemia, a gente teve um aumento da insegurança alimentar que vinha caindo e voltou a subir. Hoje em dia, a gente fala de 750 milhões de pessoas com problemas de fome e desnutrição no planeta. Sendo um grande produtor de commodities, o Brasil é um dos países mais importantes do mundo na redução da insegurança alimentar, principalmente pensando nas commodities que a gente exporta, que são cerca de 10 cadeias produtivas. A insegurança alimentar é muito forte, principalmente, nos países em desenvolvimento com destaque para a África e para a Ásia. Essas regiões tropicais da África e regiões tropicais da Ásia, e mesmo da América Latina, são as áreas que têm mais problemas de segurança alimentar no mundo e são clientes muito importantes do Brasil.

Quando falamos em infraestrutura, logística e portos, podemos dizer que o Brasil aproveita plenamente seu potencial para escoar a produção? Quais são hoje os gargalos mais urgentes?

Marcos Sawaya Jank | Antigamente, quando houve o desenvolvimento do Centro-Oeste, que a agricultura migrou para aquela região, a infraestrutura não acompanhou e passamos a ter que transportar commodities agropecuárias em caminhão a cerca de 2.000 km até chegar no Porto. Nos últimos anos a gente teve investimentos naquilo que se chama intermodalidade. Investimos em trens e hoje temos uma conexão da Ferrovia Norte Sul, que vai desde o Maranhão até o Porto de Santos. Tem os investimentos da Ferro Norte que vai de Santos até Rondonópolis e deve chegar nos próximos anos a Lucas do Rio Verde. Tem a saída da BR 163 para os portos do Arco do Norte, que ficam no Pará. Então, esses investimentos diminuíram o problema da falta de logística de transporte. Nós ainda dependemos muito do caminhão, principalmente nas curtas distâncias, mas estamos avançando para ferrovias e hidrovias na longa distância, isso é muito positivo. Mas temos um problema grave que é o problema de armazenamento. Hoje, há safras cada vez mais importantes de grãos, de algodão e até mesmo de produção de carnes e celulose. Exportamos cada vez mais e a capacidade de armazenamento não é boa e esse é um problema, porque o produtor fica refém de ter que entregar e transportar logo, ele não consegue armazenar e segurar o produto. Em resumo, diria que hoje, na infraestrutura, a armazenagem é até mais crítica do que a questão de logística e portos. Ainda que todas essas áreas da infraestrutura precisem de mais investimentos por serem um gargalo importante do agro brasileiro. O Brasil é um país continental que infelizmente não construiu ferrovias e hidrovias lá atrás. Inclusive desmontou as que existiam e nos últimos anos esse problema ficou muito crítico principalmente no Centro-Oeste brasileiro. Mas volto a dizer, o maior problema hoje é a armazenagem, não é a logística de transportes.

O crescimento populacional em países da Ásia vem alterando o consumo de alimentos no mundo. De que forma esse movimento deve impactar o agro brasileiro no médio e longo prazo?

Marcos Sawaya Jank | De fato, a região asiática, e principalmente a China, mas também o Sudeste da Ásia, o Oriente Médio e no futuro o sul da Ásia e a África, são regiões que têm enorme potencial de crescimento de demanda, porque essas regiões combinam, não todas, o crescimento populacional importante, o aumento de renda per capita, a urbanização acelerada e as mudanças de hábitos alimentares na direção de proteínas animais. Todas essas transformações são muito benéficas para a exportação brasileira, já que nós somos hoje o maior exportador de proteínas animais e vegetais do mundo. O nosso mercado está essencialmente na Ásia e na África. Hoje,  mais na Ásia e no futuro, talvez na África, se a África se urbanizar e tiver aumento de renda per capita. Nesse momento, o nosso maior mercado é a China, mas também temos crescido no Sudeste da Ásia, no Oriente Médio e há um potencial muito grande no sul da Ásia, onde está a Índia e outros países que têm grande crescimento populacional nos próximos anos. Diria que a Ásia é o nosso holofote hoje, holofote no sentido de abrigar as regiões mais importantes que demandam os nossos produtos.

O Brasil é chamado por muitos como “celeiro do mundo”. Concorda com esse “título”?

Marcos Sawaya Jank | Não concordo que o Brasil seja o celeiro do mundo. Os países querem ser o seu próprio celeiro. Ninguém quer depender de outro país em comida. Comida é muito estratégico e o que a gente vê acontecendo no mundo é um movimento onde os países aumentam barreiras ao comércio, tarifas, cotas. Até os Estados Unidos estão fazendo isso, com barreiras sanitárias, barreiras técnicas, exatamente para promover a autossuficiência. Os países querem produzir o que eles comem. Se olharmos hoje os números do comércio internacional, a gente vai ver que eles são muito pequenos em relação aos números de produção e consumo no mundo. Ou seja, o comércio está mais para exceção do que para regra. Agora, o Brasil no comércio é superimportante e vamos continuar crescendo, mas acho que celeiro do mundo é um pouco de exagero. O que a gente pode fazer e deve fazer é identificar os países que têm problemas de produção, onde o consumo está crescendo e aí sim fazer acordos comerciais que favoreçam a venda de produtos. Mesmo assim, isso não garante uma posição estável para o Brasil no longo prazo, pois esses países sempre optarão pela autossuficiência, pela segurança alimentar própria em vez de depender de comércio internacional.

Na sua visão, como equilibrar produção, competitividade e sustentabilidade em um setor que precisa crescer, mas também atender critérios cada vez mais rigorosos

Marcos Sawaya Jank | Fazemos isso há bastante tempo, mesmo antes de se falar em mudança do clima, a gente já tinha construído um programa de biocombustíveis que reduz fortemente as emissões de gases de efeito estufa. O etanol e o biodiesel são muito melhores do que gasolina e diesel. A gente fez isso nos anos 70, quando não tínhamos petróleo aqui. Hoje, 50% da matriz energética brasileira é renovável e limpa. Então, a gente faz muita coisa em termos de sustentabilidade, inclusive uma agricultura que produz duas, três safras por ano na mesma área, usando muito menos terra com alta produtividade. O que nós temos feito aqui no Brasil é exatamente isso, equilibrar a produção, competitividade e a sustentabilidade. Esse setor tem sido exemplar nisso, mas temos problemas. Já o desmatamento ilegal que acontece no Brasil, que é o desmatamento dominante, precisa ser combatido porque ele funciona fora da lei. Nós temos problemas, mas o que a agricultura fez em termos de sustentabilidade e de energias renováveis é impressionante e nos coloca numa fronteira do mundo nessa área.

Em termos de política comercial, o que o Brasil pode fazer para diversificar mercados e reduzir a dependência de poucos parceiros, como a China?

Marcos Sawaya Jank | Temos uma dependência excessiva pela China. A guerra comercial que os Estados Unidos iniciaram com vários países do mundo nos tornou ainda mais dependentes da China e de commodities que a China precisa, como o caso das carnes, do algodão e, principalmente, da soja. Precisamos pensar em diversificar mercado e diversificar produtos, como cereais, frutas, verduras e outros. Temos que buscar outros mercados e eu acho que esse é um ponto importante nesse momento de guerra comercial que está acontecendo pelo mundo, de geopolítica e de problemas entre os países. Um mundo bipolar está surgindo, com pressões para você ficar de um lado ou do outro. Nesse cenário, temos que navegar, procurando nos colocar como um fornecedor confiável, próximo, amigo de todo mundo e que trabalha essencialmente na área de disponibilidade de alimentos para o mundo.

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