Cooperação para se reinventar: quando a coragem de empreender encontra o cooperativismo

Cooperação para se reinventar: quando a coragem de empreender encontra o cooperativismo

“Se hoje eu tenho um pouquinho de coisa, um pouquinho de bens, um carro, uma casa… foi porque a cooperativa sempre esteve do meu lado. Para tudo o que eu sempre precisei, a COCRED esteve comigo”. A declaração da empresária Mariana Carolina Pollo Castro, à frente da Preta Chic, em Orlândia (SP), não é uma mera formalidade institucional.

Ela resume a essência de uma caminhada em que a fé e a determinação pessoal encontraram no cooperativismo de crédito o esteio financeiro e humano para transformar sonhos audaciosos em realidade. A história de Mariana ilustra a tese que norteia a economia colaborativa global: ninguém prospera sozinho.

O ano de 2025 foi proclamado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional das Cooperativas sob o lema “Cooperativas constroem um mundo melhor” — e esse marco segue ecoando em 2026 com ainda mais força, comprovando que a cooperação não é um evento passageiro, mas um modelo permanente de desenvolvimento socioeconômico.

Longe de ser apenas um slogan inspirador, essa premissa ganha contornos reais nas esquinas do interior brasileiro, onde histórias de reinvenção pessoal impulsionam a economia real, geram postos de trabalho e mantêm a riqueza circulando na própria comunidade.

Segundo dados do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), o cooperativismo nacional ultrapassa a marca de 25 milhões de cooperados, gerando centenas de milhares de empregos diretos e movimentando centenas de bilhões de reais na economia do país.

Por trás dessa grandiosidade estatística, operam pilares invisíveis aos olhos de instituições convencionais, como a proximidade real, a escuta ativa e o crédito que atua como ponte para a emancipação.

É preciso se reinventar

Se há 12 anos alguém previsse que a jovem sacoleira que per – corria as ruas de Orlândia seria convidada por gigantes do mercado de luxo europeu para com – por coleções em Milão, nem ela própria acreditaria. Filha de mãe lojista, Mariana aprendeu o ofício antes até de dominar a escrita formal. Aos seis anos de idade, já vendia presilhas e pulseiras para as colegas na escola.

Mais tarde, com uma maleta embaixo do braço e uma motocicleta emprestada pelo pai, à qual adaptou um pequeno baú, desbravou o comércio de rua batendo de porta em porta para vender peças em prata. A vocação sempre falou mais alto. Quando decidiu fixar endereço na antiga casa da família no centro da cidade, em 2012, o cenário impunha modéstia e coragem. “Comecei com pouquíssimas peças, bem pouco mesmo.

Na época, eu tinha R$ 10 mil em estoque de mercadoria. Eu lembro que quando eu abri a loja, eu tinha feito um monte de prateleira e a minha mercadoria não deu conta de encher uma prateleira por completo”, relembra. Para inaugurar o espaço, pegou mostruários em consignação com uma amiga. Cada venda era imediatamente reinvestida. Do segmento de joias em prata e semijoias, expandiu para relógios, perfumaria importada e ótica.

O ponto acanhado foi dando lugar a uma operação sofisticada, que hoje comercializa as marcas mais cobiçadas do planeta — grifes rigorosíssimas em exigências de infraestrutura, como Dior, Celine, Gucci, Versace, Dolce & Gabbana e Saint Laurent. Para se ter dimensão do marco conquistado pela empresária, a marca Dior mantém apenas 40 pontos de revenda autorizados em todo o território nacional, sendo a loja de Mariana um desses raros endereços.

No mesmo ano em que abriu a loja física, Mariana inaugurou sua conta na COCRED, acompanhando a tradição já iniciada por sua mãe. Foi o início de uma parceria perene. A cooperativa forneceu capital de giro, respaldo diário e apoio nos momentos decisivos, incluindo a grandiosa obra recente, que demoliu o prédio original para erguer uma nova arquitetura comercial em formato de “mini-shopping”, ocupando toda a esquina.

Hoje, a loja mantém uma equipe de sete profissionais, incluindo o marido, contador que assumiu as finanças, e o pai, que a apoia nas entregas e logística. “Todos esses anos a COCRED sempre esteve de portas abertas para mim. Tudo o que precisei, a cooperativa sempre me ajudou, nunca tive dificuldades. Estavam sempre perto de mim, do meu lado”, afirma a empresária.

É preciso se renovar

A capacidade de se reinventar e renovar não se restringe a quem está abrindo caminhos no início da vida profissional. Ela é também a marca de mestres artesãos com mais de quatro décadas de estrada, como o fabricante Marcos Gurian.

Herdando a tradição de avós seleiros vindos de Pernambuco e os ensinamentos do pai calçadista no interior de São Paulo, Gurian aprendeu a labuta aos 13 anos. Fez faculdade de contabilidade para profissionalizar a visão financeira e chegou a comandar cinco lojas próprias simultâneas, além de sua fábrica.

Mas o crescimento rápido cobrou seu preço: problemas com mão de obra terceirizada, falhas de atendimento e a perda gradual da essência do trabalho manual. Foi quando Gurian tomou uma das decisões mais difíceis para qualquer empreendedor e resolveu dar passos atrás para reencontrar o próprio caminho.

O ponto de virada veio em uma conversa simples e definitiva nos bastidores de uma Festa do Peão, quando um amigo o instigou com uma reflexão: “Marcos, olha o que te trouxe até aqui.”

A frase ecoou por meses. Ele percebeu que a alma do seu negócio nunca esteve na quantidade de vitrines, mas no valor inestimável do artesanato, na bota sob medida feita à mão e no atendimento próximo. Gurian fechou três das cinco lojas, recentralizou a produção em uma estrutura enxuta ao lado da família e resgatou a confiança de clientes que já estão na quarta geração.

A volta às origens exigiu fôlego financeiro e quando a pandemia da Covid-19 abalou as estruturas do comércio e as instituições financeiras convencionais fecharam as portas para o diálogo, a COCRED agiu proativamente. “A gerente me chamou: ‘Marcos, tem um programa do governo assim, você está precisando?’. Falei: ‘Nossa, se tô!’. Quando houve a negociação, ela falou: ‘Fica tranquilo, isso vai ser automático, depois você só passa aqui para assinar’.

Enquanto em outro banco deu o maior rolo e não queriam conversa. Foi onde encerrei a outra conta e fiquei só com a COCRED”, diz. Com os negócios reestruturados, aos 65 anos de idade, sem pensar em aposentadoria ociosa, Gurian planeja erguer uma vila cenográfica temática em frente à sua fábrica, com cenários country e celeiro americano para potencializar suas gravações digitais e manter viva a arte do couro. O crédito acessível e o capital de giro da cooperativa continuam sendo a base estável para que essa tradição familiar siga em frente.

É preciso inovar

Reinvenção também tem a ver com quebrar paradigmas em mercados consolidados. Em Uberlândia (MG), a trajetória da iGreen demonstra como o propósito sustentável pode transformar a matriz energética brasileira quando apoiado por modelos de negócios colaborativos.

Amanda Durante, CEO e cofundadora da empresa, trabalhava no setor de energia convencional quando percebeu, ao lado do irmão, o potencial inexplorado da geração distribuída compartilhada. A proposta era democratizar a energia solar conectando usinas limpas à rede distribuidora para conceder desconto de até 20% na conta de luz de clientes residenciais e comerciais, sem a necessidade de instalar placas no telhado.

Para viabilizar a adesão sem as barreiras da desconfiança, apostaram no relacionamento porta a porta e criaram uma rede de licenciados que recebem até 70% de comissão recorrente, gerando renda mensal para milhares de famílias enquanto levam sustentabilidade à ponta final. “A gente não abriu a empresa por dinheiro, foi por propósito. Nosso propósito é enriquecer vidas e impactar o mundo com sustentabilidade. A gente democratizou o acesso à energia limpa pegando toda a base”, aponta Amanda.

Focando no consumidor comum (com contas a partir de 100 kWh), segmento historicamente ignorado pelas grandes operadoras, a empresa escalou: conta com 40 mil vendedores licenciados, 400 colaboradores diretos, mais de 800 mil clientes em 22 estados e mais de 20 milhões de quilos de CO₂ evitados na atmosfera. Para Amanda, gerenciar uma operação desse porte exige parceiros que compreendam os desafios da expansão diária.

“Você precisa ter muito claro o seu propósito para poder passar pelas adversidades. Quando a gente olha para trás, vê que valeu a pena persistir no que acreditava, porque se você não tiver propósito e pessoas que caminham junto com você, o negócio não vai para a frente”, diz.

Assim como nas rotinas de Mariana e Gurian, a escala da iGreen depende de estabilidade de fluxo, suporte de recebíveis e parcerias alinhadas ao desenvolvimento compartilhado e sustentável, ou seja, um valor que o cooperativismo financeiro pratica no dia a dia.

Por um mundo melhor

A jornada da sacoleira que conquistou espaço junto às principais grifes internacionais, a sabedoria do artesão que soube desacelerar para preservar sua identidade e a audácia da jovem que democratizou a luz solar convergem na certeza de que quando o empreendedor é compreendido em sua realidade singular, o impossível perde a força.

Essa dinâmica evidencia o que estudos econômicos reiteram ano após ano: a presença de cooperativas financeiras impulsiona diretamente o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e eleva o PIB per capita dos municípios onde atuam. Diferente do sistema bancário tradicional, que frequentemente drena a poupança do interior para concentrá-la nos grandes centros financeiros, as cooperativas mantêm os recursos girando exatamente onde foram gerados.

O dinheiro poupado por um comerciante financia o capital de giro do artesão vizinho, que por sua vez emprega famílias locais, fortalecendo todo o tecido social da comunidade. É por isso que o modelo cooperativo não busca clientes, mas acolhe cooperados donos do negócio.

Ao reinvestir as sobras financeiras na própria região, oferecer crédito orientado em momentos desafiadores e disponibilizar gerentes que conhecem cada associado pelo nome, a COCRED dá continuidade ao lema proclamado pela ONU, porque as cooperativas de fato constroem um mundo melhor ao fortalecer a máxima de que quem ousa se reinventar jamais caminhará sozinho.

Gostou do conteúdo? Leia essa e outras matérias sobre o cooperativismo na 48ª edição da Revista COCRED MAIS.

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